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Tropa de Elite

Posted on: outubro 3, 2007

Tropa de Elite já é, antes de seu lançamento, um marco no cinema brasileiro. A polêmica, que envolve a própria trama em si, já começou na ilha de edição, quando uma cópia não-finalizada foi parar em bancas de camelôs no Rio de Janeiro. A pirataria, um problema preocupante à indústria cinematográfica mundial, atacou, desta vez, uma produção brasileira. De cara, o primeiro filme de ficção dirigido por José Padilha (do excelente documentário Ônibus 174) fez estardalhaço no Brasil.

Tropa de Elite

Toda essa história da ilegalidade envolvendo a produção de Tropa de Elite, antes mesmo de sua finalização, funciona como um chamariz à produção: sua primeira exibição em público foi realizada no Festival do Rio; a sessão aberta ao público, única dentro da programação do evento, teve seus ingressos esgotados uma hora após o início de suas vendas. Prova de que a pirataria do longa só fez com que a curiosidade do público fosse mais instigada ainda. Agora, a estréia de Tropa de Elite no Brasil, marcada para o dia 12 de outubro, foi antecipada em uma semana nos cinemas do Rio de Janeiro e São Paulo, onde ficará em cartaz a partir do dia 5. De acordo com a distribuidora, até a próxima semana, aproximadamente 250 cópias do longa estarão espalhadas nas salas nacionais, número bastante representativo em se tratando do lançamento de um filme brasileiro.

Mas a polêmica em torno de Tropa de Elite não fica somente nessas histórias que surgiram em torno de sua produção. O longa de Padilha é uma verdadeira seqüência de tapas na cara do espectador. Ao mostrar com honestidade única os bastidores envolvendo a corrupção e a violência de duas instituições cariocas criadas para proteger os cidadãos – a Polícia Militar e o Batalhão de Operações Especiais (Bope) -, o filme reconstrói na tela toda a malha de relações de poder que transformam a capital carioca numa das cidades mais violentas do mundo.

O roteiro – baseado no livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel – mostra o cotidiano de um grupo de policiais no Rio de Janeiro. De um lado, temos Neto (Caio Junqueira) e André (André Ramiro), dois amigos de infância que acabaram de entrar na Polícia Militar carioca; de outro, o Capitão Nascimento (Wagner Moura), membro do Bope que passa por problemas pessoais e pretende sair da corporação, mas, para isso, precisa encontrar um substituto à altura.

Na medida em que os caminhos desses personagens transformam-se num único, a história nos apresenta toda a relação de poderes que foram construídos não somente dentro da Polícia, marcada principalmente pela corrupção, mas também dentro das favelas cariocas e, conseqüentemente, a relação entre policiais e traficantes. Ao mesmo tempo em que o consumo de drogas é tratado com conivência dentro das mais altas rodas sociais, é essa prática e a corrupção policial que mantém o tráfico vivo. Tudo está interligado demais e, a esta altura, não há muito a ser feito. Quando uma unidade tão violenta e implacável quando o Bope é criada para corrigir os erros que a Polícia Militar acumula em sua atuação, temos um problema, principalmente moral. O fato de Tropa de Elite ser narrado por Nascimento faz com que o espectador perceba que violência se responde com violência, mas sem julgamentos do que é certo e errado: está tudo errado e ponto final.

Não há esperanças na realidade mostrada em Tropa de Elite. O filme passa longe do moralismo e do maniqueísmo, soluções fáceis ao se lidar com um tema como este. A produção não pretende apontar mocinhos e vilões; aqui, todos têm seu lado bom e ruim. Ao tratar os personagens como humanos, com seus interesses pessoais e fraquezas, Tropa de Elite torna-se mais real e palpável ainda ao espectador. O ambiente, definitivamente, é fator essencial ao moldar a personalidade e a moral dos personagens do longa.

Enquanto a adrenalina cresce nos personagens durante as situações tensas pelas quais passam, a tensão também cresce no espectador, resultado dessa relação tão íntima que se trava entre a câmera e os acontecimentos do filme. A ausência do moralismo na construção dos personagens também faz com que o público seja cada vez mais envolvido em seus dramas e na violência que permeia seu dia-a-dia. As atuações do elenco de Tropa de Elite são primorosas, no mínimo, com destaque ao trio de protagonistas, Moura, Junqueira e Ramiro. A direção de Tropa de Elite é semelhante à documental: a câmera está na mão o tempo todo. Desta forma, as imagens acompanham intimamente toda a ação que se passa no filme; as cenas noturnas, tão difíceis de lidar – especialmente em ambientes de geografia tão instável, como as favelas -, também são muito bem filmadas.

Ao abordar as causas e conseqüências da violência no Rio de Janeiro de uma forma tão profunda e verdadeira, Tropa de Elite dialoga não somente com a cidade onde se passa, mas com todo o país. A corrupção e a falta de moral estão presentes em todas as esferas sociais; por isso, o filme é tão essencial para que se entenda, afinal, como o Brasil parou nesse ciclo vicioso de imoralidade e violência.

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